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Existe uma qualidade particular de desconforto que pertence especificamente aos trópicos – não o pavor frio e cinzento dos pântanos ingleses ou a paranoia envolta em neblina de uma sala de estar vitoriana, mas algo mais quente, mais selvagem, mais profundamente entrelaçado com o mundo vivo. Cipós que crescem mais rápido do que se pode cortá-los. Rios que parecem respirar. Uma paisagem que não parece inerte.
Não deveria nos surpreender, então, que a ficção gótica nas regiões tropicais das Américas tenha se desenvolvido em algo distinto de seu parente europeu. O que os estudiosos agora chamam de Gótico Tropical não é o Gótico Sulista movido para o sul do equador. É uma tradição própria, com suas próprias preocupações, seus próprios monstros e sua própria escuridão particular.
O Gótico Tropical compartilha com o Gótico Europeu sua preocupação fundamental: o passado que se recusa a ser enterrado, a ferida que não cicatriza, o segredo que deforma o presente. Mas as feridas históricas que ele processa são diferentes. O Gótico Europeu, apesar de toda a sua preocupação com a decadência e a herança, opera em grande parte dentro de uma estrutura de ansiedade dinástica — o medo da aristocracia de sua própria obsolescência, o terror da burguesia do que se esconde sob a respeitabilidade.
O Gótico Tropical opera no rescaldo do colonialismo. Seus passados enterrados não são meros segredos familiares embaraçosos, mas as violências fundacionais da conquista, da escravidão e da aniquilação cultural forçada. Suas casas assombradas não são apenas arquitetonicamente precárias — são estruturas construídas com trabalho roubado em terra roubada. Os fantasmas não são metafóricos.
É por isso que o trabalho de estudiosos como Justin D. Edwards e Sandra Guardini Vasconcelos, que mapearam o Gótico Tropical no Brasil, México, Caribe e sul dos Estados Unidos, representa uma intervenção tão importante. Ao nomear a tradição, eles tornaram visível o que já existia: um corpo de literatura gótica produzido nas Américas que havia sido tratado como periférico — colapsado na vaga categoria de realismo mágico em vez de ser reconhecido como ficção gótica realizando um trabalho sofisticado sobre um conjunto específico de condições históricas e culturais.
O Brasil oferece um caso particularmente rico. O Gótico Brasileiro se baseia simultaneamente em três enormes tradições mitológicas: as cosmologias indígenas de povos como os Tupi e Guaraní, os sistemas espirituais afro-brasileiros do Candomblé e da Umbanda, e a tradição colonial portuguesa que chegou no século XVI e tentou, com sucesso parcial, sobrepor a tudo isso o Catolicismo.
As criaturas do folclore brasileiro — a Caipora que guarda a floresta, a Iara, o espírito da água que atrai homens à morte com sua voz, o Saci que perturba e engana — não são meras figuras mitológicas coloridas. No arcabouço gótico, elas são guardiãs do que o colonialismo tentou destruir. Elas assombram a paisagem porque a paisagem foi ferida.
A literatura romântica brasileira do século XIX — particularmente a obra de José de Alencar — utilizou a mitologia indígena com um tipo de idealização que era em si um ato político: uma afirmação da identidade cultural brasileira contra a desqualificação europeia. Escritores posteriores complicaram e obscureceram essa herança. O grotesco, o estranho e o politicamente carregado coexistem no Gótico Brasileiro de maneiras que o tornam formalmente distinto de qualquer coisa produzida na tradição europeia.
A recente atenção crítica às tradições góticas não europeias reflete um acerto de contas mais amplo na pesquisa literária sobre cujas histórias foram centralizadas, cujo pavor foi considerado universal e cujos monstros foram tratados como meramente locais. Quando leitores na Europa ou América do Norte encontram o Gótico Tropical, eles frequentemente experimentam um reconhecimento: aqui está a ficção gótica fazendo algo que eles não sabiam que a ficção gótica poderia fazer.
Esta não é uma literatura marginal. É uma literatura que tem falado, na escuridão e complexidade e beleza, por séculos — e só recentemente começou a receber a atenção crítica que merece.
Na Caipora Books, o Gótico Tropical não é uma categoria acadêmica. É uma tradição viva que publicamos, estudamos e celebramos.